
Carioca, 56 anos, três filhos adultos que são a maior bênção que já recebi na vida, pisciana, sonhadora, com ascendente em Áries, portanto guerreira e chata, com lua em Câncer, o que me faz um pouco mãezona. Espírito jovem, o que vive me causando problemas, pois gosto de quase tudo que os jovens gostam. Acho lindo piercing, apesar de não tê-los, gosto de techno, gosto de tatuagem, e gosto de festas.
Por outro lado, também gosto muito de ler, de ficar em casa, cozinhar, ouvir música clássica, assistir concertos e balés. E, principalmente, curto muito a minha idade, meu saber e minhas marcas de passagem por essa vida.
Sou leitora eclética. Admiro desde os clássicos russos e franceses, passeio pelos poetas portugueses, filósofos gregos, alemães, franceses e brasileiros e, atualmente, tenho dedicado bastante atenção aos escritores e pensadores orientais.
Assim como na leitura, minhas músicas prediletas vão desde os "might five"russos, passando pelas óperas, pelo blues, rock,mpb e pelos sambas e folclores brasileiros.Ou seja, sou uma bagunça intelectual!

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Uma semana nos jornais...
Quarta-feira, 21 de julho. Luiz Fernando Lopes Caldeira, 29 anos, designer carioca com promissora carreira, foi a Niterói apresentar um projeto gráfico. No caminho, deparou-se com uma senhora de 85 anos sendo assaltada. Foi defendê-la. Sua vida terminou ali, no meio do gesto heróico, com um tiro no pulmão disparado pelo assaltante.
Segunda- feira, 26 de julho. Fernando Vilella de Andrade Neto, 30 anos, FerVil como era conhecido esse pioneiro da informação on-line, andava feliz mobiliando o apartamento que havia comprado. Seus sonhos terminaram com um tiro no coração enquanto passava de carro no Largo do Santo Cristo.
Terça-feira, 27 de julho. Gualter Cesar Ventura Guimarães, 18 anos, foi encontrado em um matagal na Zona Oeste da Cidade, executado por policiais militares.
Quarta-feira, 28 de julho, meio dia...
Josias Tavares, 67 anos, fazia seu programa favorito. Brincava com seus três netos no Parque Pomar da Barra. Os momentos felizes com os netos terminaram com um tiro na cabeça, vindo de uma bala que apareceu por ali.
À noite...Rosemeri Reis Haddad, 54 anos, médica bem sucedida, moradora do Leblon, foi, com seu marido, ao cinema na Casa de Cultura Laura Alvim, na Av. Vieira Souto, endereço nobre de Ipanema. Não conseguiu se divertir. Ao descer do carro em frente ao cinema, teve sua bolsa roubada por dois ciclistas. Assustada, correu para o meio da rua....e morreu atropelada.
Estas foram as notícias da semana estampadas nos jornais da Cidade. Elas vieram acompanhadas de fotografias de pais, maridos e filhos, sentados nos meio-fios, com o ar desolado e chocado de quem não acredita ter chegado a sua vez de viver o drama a que estamos submetidos. E, ao ler as notícias, me pergunto até quando o Governo Federal, que só se interessa por nossos votos errados, nos fará assistir a esse triste espetáculo e, impotentes, aguardar a chegada da nossa vez?
Afirmação
"Há duas afirmações do amor. Primeiro, quando o apaixonado encontra o outro, há afirmação imediata (psicologicamente: deslumbramento, entusiasmo, exaltação, projeção louca de um futuro realizado: sou devorado pelo desejo, a impulsão de ser feliz): digo sim a tudo (me tornando cego). Segue-se um longo túnel: meu primeiro sim é roído pelas dúvidas, o valor amoroso é a todo instante ameaçado de depreciação: é o momento da paixão triste, a ascensão do ressentimento e da oblação. Posso sair, porém, desse túnel; posso "sobrelevar", sem liquidar; o que afirmei da primeira vez, posso novamente afirmar, sem repetir, porque então, o que afirmo, é a afirmação, não sua contingência: afirmo o primeiro encontro na sua diferença, quero sua volta, não sua repetição. Digo ao outro (antigo ou novo): Recomecemos."
Nietzsche: tudo segundo Deleuze, 77 e 218 (sobre a afirmação da afirmação).
Fragmentos de um discurso amoroso
Roland Barthes
Um domingo de chuva...
Ontem, depois de uma tentativa frustrada de ir ao teatro com meu amigo Pedro Setti, chegamos lá e a lotação estava esgotada, comemos uma pizza e acabamos voltando cedo para casa. Estava frio, chovia. O Rio com chuva faz um frio molhado, que gela a gente. O melhor é ir dormir..
Com isso, claro, acordei cedo. Não gosto de acordar cedo aos domingos!
Para mim esse dia é sagrado, é dia de dormir, de não fazer nada, de não ter compromissos, se puder, não gosto nem de pensar...
Chuva, frio, cinza. Aproveito e ligo para os irmãos, para os filhos, leio os jornais, e o dia se arrasta. Frio, cinza, triste...
Resolvo fazer uma sopa para esquentar. Volto à infância e me lembro de uma sopa de mandioca com costela de boi que comia na casa dos avós em Minas, feita no fogão à lenha. Deixo meu torpor, tomo banho, saio para comprar os ingredientes e volto gelada e molhada, mas ainda animada com a perspectiva de mais tarde me esquentar com essa sopa.
Coloco Os Planetas do Gustav Holst para ouvir e vou para a cozinha. Limpo, pico, tempero, passeio por Marte, Vênus, Mercúrio, ponho um pouco mais de sal, que tal uma pimenta? Vou a Júpiter, Saturno, refogo, coloco água, tampo a panela, o som aumenta, vou a Urano, Netuno, e tal como Gustav em sua sinfonia, abaixo o fogo e deixo a cozinha. Agora é esperar. Olho pela janela e tudo continua cinza, frio e triste.
Caio no sofá e enquanto espero tudo cozinhar, leio um pouco do Timbuktu , do Paul Auster, e vou ficando cada vez mais encolhida. Muito frio, muita chuva, muito cinza.
Depois de algumas horas, a sopa fica pronta, com seu caldo grosso, fumegante, volto a ficar animada e até me esqueço desse dia cinza. Mas para não fugir do clima, tudo ficou muito ruim. Sal demais, pimenta demais, acho que me empolguei quando estava em Mercúrio. E as horas não passam, o dia se arrasta, cinza, frio e feio.
Resolvo assistir Dogville, do Lars Von Trier. O filme tem em mim o efeito de um soco no estômago! Fico em frente ao televisor, prostrada, me sentindo fria, cinza, triste...e profundamente humana.
Off Flip....
Todos que foram à Flip estão contando tudo que rolou por lá, então, prefiro contar minhas impressões sobre nossos amigos de todos os dias nas leituras virtuais. O grande acontecimento, sem dúvida, foi a presença do nosso Grande Milton Ribeiro. Este senhor, que leio diariamente há quase um ano, sempre me pareceu um homem calmo, equilibrado, paizão, vivendo dias felizes com sua Claudia. Em seus posts, passa-nos um profundo conhecimento literário, cinematográfico e musical. O que eu não podia imaginar é que fosse um "superengraçado", que não perde piada alguma. De manhã cedo, Milton já aparecia no café, acompanhado de seu livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, todo riscado com lápis vermelho. Algumas páginas tinham círculos grandes, envolvendo quase toda a página. Claro que o livro era só para compor seu visual de intelectual, com uns óculos redondos, enormes, pois ele estava sempre cercado de nós, seus sete leitores que não o deixavam ler frase alguma. Milton conquistou não só a nós, mas também algumas senhoras que ao vê-lo chegar para o café, já iam puxar papo. Foi a sensação da Flip!
Quem dividia as atenções no café da manhã era, a também engraçadíssima Stella Klugt, sempre contando as estrepolias da véspera. A Stella foi a grande difusora da presença ilustre do nosso Milton em Paraty. Do alto de seus 1,77 m, ela encarava os porteiros e seguranças dizendo: Mas como? Estamos juntos com o famoso Milton Ribeiro!!
O melhor foi no dia em que, conseguindo driblar os porteiros, entrei na tenda dos autores com ingresso do telão e logo atrás, o resto do grupo foi barrado. Só ouvia a Stella dizer: "Vocês estão barrando o Milton Ribeiro!!!" Exclamava irada, com seus grandes olhos azuis fuzilando o pobre do homem da roleta, que sem saber de tão ilustre figura, na dúvida, deixou-os entrar. Foi de rachar de rir. Não por acaso, a Sue Medeiros apelidou-a de "Holandesa Voadora ".
A Sue, calma e meiga, andava pelas pedras de Paraty com uma velocidade espantosa. Saía a toda, sem nenhum medo de escorregões. E a Silvia, com seus belíssimos olhos verdes, (ou seriam azuis?) sempre atrás de companhia para as noitadas nos chamava de velhos desanimados. Uma figura ímpar!
A Cláudia, doce Cláudia, ao ver tanto paparico com o Milton nos olhava e dizia: "Vocês estão criando um monstro!" E todos nós ríamos.
Foram dias de muitos risos, brincadeiras e também embevecimento em assistir tantos inteligentes falando, quebrando mitos, ao ver nosso Chico desejando a Débora Secco e levando uma descompostura de sua filha Silvia.
Conheci também, o Caco Belmonte, que distribuiu seu conto "Para Ler Cagando", que eu, assim como oAlexandre Inagaki, desobedientemente li tão logo o recebi. Por falar no Inagaki, não o conheci, mas cruzávamos a todo instante pelas pedras de Paraty. Sempre acompanhado de sua namorada, mãozinhas dadas, livros debaixo dos braços e um belo sorriso no rosto. Lamentei, também, não ter me encontrado com aAdelaide Amorim, de quem me desencontrei por segundos.
O melhor de toda a Flip foi o ar de felicidade e prazer estampado no rosto das pessoas que lá estavam, não importando se eram "famosos" alguéns ou ninguéns. A cidade estava feliz e nós também!
A Magia do Encontro
Há um ano atrás, quando passando por problemas, não consegui ir a I Flip, jurei para mim mesma canalizar toda a energia possível para ir à próxima. Na época, nem imaginava o rumo que minha vida tomaria, não imaginava escrever em blog, não imaginava nada que o futuro estaria guardando para mim. Eu era apenas uma leitora voraz que queria participar de uma festa que juntava escritores e leitores. Só isso!
Com essa disposição segui em frente, com mais motivação ainda, pois minha vida agora estava cercada de pessoas simpáticas, inteligentes, e vislumbrei a possibilidade de conhecer, pelo menos alguns, numa festa especial.
Sim, a Flip é uma festa especial! A idéia de juntar numa cidade linda, pequena e protegida de carros, escritores e leitores, é genial. A gente esbarra nos nossos mitos nos restaurantes, nos bares, nas ruas e nas lojas, numa freqüência tão absurda que nos sentimos próximos, quase iguais. Sem falar na possibilidade de passarmos horas ouvindo o que têm a dizer, vê-los se mexer ao compasso da música, jantar na mesa ao lado, ouvir suas conversas! Tudo isso para mim foi mágico! Paraty respirava e transpirava inteligência e cultura! E eu, que sempre lutei e luto para convencer as pessoas sobre o prazer da leitura, me senti em estado de graça!
Não bastasse tanta alegria pela festa, experimentei, pela segunda vez, a emoção de conhecer pessoalmente alguns dos admiráveis amigos virtuais com quem tenho mantido, há quase um ano, intensa troca de afeto e sentimento. A magia se instalou de novo!
Como da primeira vez, nem sempre correspondiam à imagem física que havia feito, mas passado o primeiro olhar, era como se eu estivesse reencontrando aquele bom e velho amigo, que já me conhece e que me fez cúmplice da sua vida. Quando compartilhamos nosso dia a dia, nossas alegrias e tristezas através da tela do computador, ao nos fazermos reais, a sintonia é imediata. E foi com essa sintonia que encontrei o Milton Ribeiro e Claudia, a Sue Medeiros, a Eugênia Fortes, o Caco Belmonte, e me reencontrei com a Stella Klugt, dona de uma alegria e irreverência contagiantes.
São festas e encontros como esse que fazem a gente sentir que, por mais pesada e difícil que esteja a nossa vida, ela ainda é mágica e vale a pena!
A caminho de Paraty para a tão esperada Flip!
Com certeza a Paraty de hoje já não é aquela cidade maravilhosa, antiga, com suas casinhas coloniais e restaurantes simples onde se comia um bom peixe frito. Ainda assim, com as simples casinhas transformadas em lojas para turistas e pelo que se lê, invadida por milhares de pessoas, é uma cidade linda, com águas verdes e paisagem deslumbrante.
A possibilidade do encontro com algumas pessoas desse nosso mundinho virtual, onde trocamos pensamentos, sonhos, dores e esperanças, me dá a sensação de reunião com velhos e íntimos amigos e me deixa muito feliz.
Até segunda, e boa semana para todos!
Tinha uma estátua no meio do caminho....
- Bom dia querido! Essa noite fiquei preocupada! Choveu tanto...e você aqui! Disse a senhorinha sentando-se a seu lado.
- Ô cumpadi... Esse mundo é mesmo muito louco, não? Disse o bêbado deitado em seu colo.
- Oh Meu Deus! Quanta emoção por conhecê-lo! Quando iríamos imaginar que um dia estaríamos assim, sentadas a seu lado! Podemos tirar uma foto? Disseram as três moças do Paraná.
- Vamos passar a mão na sua cabeça para ver se assim a gente consegue saber mais. O Chico lá na Escola, disse que depois que veio aqui para vê-lo conseguiu aprender mais, disseram seis meninos pulando em cima dele, passando suas mãozinhas em sua careca e acarinhando suas mãos.
E, comovida, uma senhora sentou-se a seu lado, colocou três rosas vermelhas em suas mãos e desabafou com ele sobre seus amores imperfeitos, numa perfeita cumplicidade, como se ele pudesse compreendê-la e ajudá-la.
Esses são fragmentos de diálogos que já ouvi das pessoas que se sentam ao lado da estátua de Carlos Drummond de Andrade, assentado num banco da praia de Copacabana, bairro em que morava.
Hoje, nesta noite em que a lua cheia deixa seu rastro dourado na água do mar, penso naquela estátua, penso no poeta que conheci e também tenho vontade de me sentar a seu lado para conversar...
Permanência
Agora me lembra um, antes me lembrava outro.
Dia virá em que nenhum será lembrado.
Então no mesmo esquecimento se fundirão.
Mais uma vez a carne unida, e as bodas
cumprindo-se em si mesmas, como ontem e sempre.
Pois eterno é o amor que une e separa, e eterno o fim
(já começara, antes de ser), e somos eternos,
frágeis, nebulosos, tartamudos, frustrados: eternos.
E o esquecimento ainda é memória, e lagoas de sono
selam em seu negrume o que amamos e fomos um dia,
ou nunca fomos, e contudo arde em nós
à maneira da chama que dorme nos paus de lenha jogados
[no galpão.
Poema de Sete Faces
Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
À tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Carlos Drummond de Andrade)